Canetas emagrecedoras aumentam o risco de câncer de tireoide? Veja o que a ciência sabe até agora
Estudos com semaglutida, liraglutida e outros medicamentos da classe dos agonistas de GLP-1 ainda investigam uma possível relação com tumores da tireoide. Os dados em humanos, porém, são mais complexos do que o alerta presente nas bulas pode sugerir.
16/08/2026
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Por que as canetas emagrecedoras passaram a ser relacionadas ao câncer de tireoide?
Medicamentos usados no tratamento da obesidade e do diabetes mudaram profundamente a abordagem dessas doenças nos últimos anos. Entre eles estão fármacos como semaglutida e liraglutida, que atuam como agonistas do receptor de GLP-1, além da tirzepatida, que atua sobre receptores de GIP e GLP-1.
Com o crescimento do uso dessas chamadas "canetas emagrecedoras", uma dúvida também ganhou espaço: esses medicamentos podem aumentar o risco de câncer de tireoide?
A resposta atual exige cuidado. Existem alertas importantes, especialmente relacionados ao carcinoma medular da tireoide, mas os estudos realizados em seres humanos ainda não demonstraram de maneira conclusiva que esses medicamentos sejam responsáveis por causar esse tipo de câncer.
A preocupação começou principalmente a partir de estudos realizados em animais.
O que aconteceu nos estudos com animais?
Durante o desenvolvimento de alguns desses medicamentos, estudos em roedores identificaram aumento de tumores das células C da tireoide.
Essas células produzem calcitonina e estão relacionadas ao desenvolvimento do carcinoma medular da tireoide, um tipo relativamente raro de câncer.
O problema é que os resultados encontrados em animais não podem ser automaticamente transferidos para seres humanos.
A própria FDA, agência reguladora dos Estados Unidos, informa nas bulas atuais da semaglutida para obesidade que o medicamento provocou tumores das células C da tireoide em roedores, mas que não está estabelecido se isso ocorre em humanos. A mesma advertência aparece para a tirzepatida.
É justamente daí que vem grande parte do alerta relacionado à tireoide.
Semaglutida pode causar câncer de tireoide?
Até o momento, não existe evidência conclusiva de que a semaglutida cause câncer de tireoide em seres humanos.
Uma revisão sistemática e meta-análise que avaliou estudos clínicos randomizados e dados de vida real sobre semaglutida não encontrou associação estatisticamente significativa entre o medicamento e aumento de câncer de tireoide.
Um dos maiores estudos sobre o assunto foi publicado no The BMJ em 2024 e utilizou registros nacionais da Dinamarca, Noruega e Suécia.
Foram avaliados mais de 145 mil pacientes que iniciaram tratamento com agonistas do receptor de GLP-1.
Durante um acompanhamento médio de 3,9 anos, os pesquisadores não encontraram aumento substancial do risco de câncer de tireoide entre os usuários desses medicamentos quando comparados a pacientes tratados com outra classe de medicamentos para diabetes.
O estudo encontrou 76 casos de câncer de tireoide entre 145.410 usuários de agonistas de GLP-1, correspondendo a 1,33 caso por 10 mil pessoas-ano. No grupo comparador, foram 184 casos entre 291.667 pacientes, com incidência de 1,46 por 10 mil pessoas-ano.
Esses números são importantes porque mostram que o cenário é bem diferente da ideia simplificada de que "caneta emagrecedora causa câncer".
Mas alguns estudos encontraram um possível sinal de risco
É aqui que a discussão fica mais interessante.
Nem todos os trabalhos chegaram exatamente à mesma conclusão.
Uma meta-análise de ensaios clínicos publicada anteriormente encontrou um aumento relativo estatisticamente significativo de câncer de tireoide entre usuários de agonistas de GLP-1. Entretanto, o número absoluto de casos foi muito pequeno e a própria análise mostrou fragilidade estatística. Os autores calcularam um número necessário para causar dano de aproximadamente 1.349 pessoas tratadas durante cinco anos para um caso adicional.
Em 2025, outra meta-análise envolvendo 50 ensaios clínicos também identificou um sinal de aumento do risco de câncer de tireoide, com odds ratio de 1,55. Os pesquisadores destacaram a necessidade de estudos específicos e acompanhamento prolongado para esclarecer esse possível sinal.
Por outro lado, uma meta-análise mais recente sobre terapias baseadas em incretinas não encontrou associação estatisticamente significativa com câncer de tireoide. Os próprios pesquisadores ressaltaram, porém, que a raridade desses tumores e o tempo limitado de acompanhamento ainda dificultam conclusões definitivas.
Portanto, a ciência ainda acompanha o tema.
E o carcinoma medular da tireoide?
Essa distinção é fundamental.
Existem diferentes tipos de câncer de tireoide. O carcinoma papilífero é o mais frequente, enquanto o carcinoma medular da tireoide (CMT) é bem mais raro e surge justamente das células C.
É esse último que aparece com destaque nos alertas dos medicamentos.
A bula norte-americana atual da semaglutida para obesidade contraindica seu uso em pessoas com história pessoal ou familiar de carcinoma medular da tireoide ou com neoplasia endócrina múltipla tipo 2, conhecida como MEN 2.
A tirzepatida possui advertência semelhante.
Isso não significa que qualquer pessoa com hipotireoidismo, hipertireoidismo ou nódulo de tireoide automaticamente esteja proibida de utilizar esses medicamentos. São situações diferentes e precisam ser avaliadas individualmente pelo médico.
Ter nódulo na tireoide significa que não posso usar essas medicações?
Não necessariamente.
Nódulos tireoidianos são relativamente comuns e possuem diversas causas. A existência de um nódulo não equivale ao diagnóstico de carcinoma medular da tireoide.
O médico deve avaliar características como histórico pessoal e familiar, exame físico, ultrassonografia e, quando indicado, exames laboratoriais ou investigação complementar.
Por isso, quem já possui doença da tireoide não deve simplesmente iniciar ou suspender uma dessas medicações por conta própria.
É necessário fazer calcitonina ou ultrassom da tireoide durante o tratamento?
Esse é outro ponto que costuma gerar dúvidas.
Segundo a informação de prescrição da FDA para semaglutida, o valor do monitoramento rotineiro da calcitonina sérica ou da realização de ultrassonografia da tireoide para detecção precoce de carcinoma medular em todos os pacientes tratados é incerto.
Isso significa que não existe recomendação para transformar esses exames em rastreamento indiscriminado apenas porque alguém começou a utilizar semaglutida.
A investigação deve ser individualizada.
Quais sinais merecem avaliação médica?
Independentemente do uso de medicamentos para obesidade, alterações persistentes na região da tireoide devem ser investigadas.
Entre os sinais que merecem atenção estão:
aparecimento de nódulo ou massa no pescoço;
aumento progressivo de volume na região cervical;
dificuldade para engolir;
dificuldade para respirar;
rouquidão persistente sem causa conhecida.
Esses sintomas não significam necessariamente câncer, mas justificam avaliação médica. Eles também aparecem entre os sinais sobre os quais pacientes em tratamento com semaglutida e tirzepatida devem ser orientados.
O que dizem as autoridades reguladoras?
A Agência Europeia de Medicamentos avaliou especificamente a possível associação entre agonistas do receptor de GLP-1 e câncer de tireoide.
Após analisar estudos observacionais, literatura científica e dados clínicos e pós-comercialização, o comitê de segurança da EMA concluiu que as evidências disponíveis não sustentavam uma relação causal entre agonistas de GLP-1 e câncer de tireoide.
Isso não encerra definitivamente a discussão.
Medicamentos relativamente novos continuam sendo acompanhados por sistemas de farmacovigilância, principalmente porque determinados efeitos adversos raros podem exigir muitos anos e populações muito grandes para serem identificados com segurança.
Então as canetas emagrecedoras são seguras para a tireoide?
A resposta mais correta hoje é: os dados disponíveis em humanos não demonstram de forma conclusiva que esses medicamentos causem câncer de tireoide, mas um possível risco pequeno ainda não pode ser completamente descartado.
Grandes estudos observacionais são tranquilizadores. Algumas meta-análises encontraram sinais estatísticos que justificam acompanhamento, enquanto outras análises não confirmaram aumento significativo do risco.
Existe ainda uma limitação inevitável: câncer é um desfecho relativamente raro e pode levar muitos anos para se desenvolver. Para medicamentos cujo uso aumentou de forma extraordinária recentemente, o acompanhamento de longo prazo continuará sendo essencial.
Portanto, nem alarmismo nem banalização são adequados.
O maior risco pode estar no uso sem acompanhamento
Semaglutida, liraglutida, tirzepatida e medicamentos semelhantes não devem ser tratados simplesmente como produtos estéticos para emagrecimento rápido.
São medicamentos com indicações, contraindicações e possíveis efeitos adversos.
Antes de iniciar o tratamento, é importante informar ao médico doenças anteriores, medicamentos utilizados e principalmente antecedentes pessoais ou familiares relevantes, incluindo histórico de carcinoma medular da tireoide ou MEN 2.
Também não é recomendável interromper uma medicação prescrita apenas por medo de câncer após ler informações isoladas nas redes sociais.
A decisão precisa considerar benefícios, riscos e características individuais de cada paciente.
O que sabemos até agora?
A relação entre canetas emagrecedoras e câncer de tireoide continua sendo estudada.
O sinal inicial surgiu principalmente de tumores das células C observados em animais. Em humanos, grandes estudos observacionais não confirmaram até agora um aumento substancial do risco, enquanto algumas meta-análises encontraram sinais que justificam vigilância e pesquisas de longo prazo.
Para quem utiliza ou pretende utilizar esses medicamentos, a informação mais importante é simples: não use por conta própria e informe ao médico qualquer histórico pessoal ou familiar de carcinoma medular da tireoide ou MEN 2.
Você usa ou pensa em usar alguma das chamadas canetas emagrecedoras?
Antes de iniciar o tratamento, converse com um médico e informe seu histórico de saúde e os casos de doenças da tireoide existentes na família. Medicamentos para obesidade podem trazer benefícios importantes quando corretamente indicados, mas precisam de acompanhamento.
Continue acompanhando o Alerta Saúde para entender, com informação baseada em evidências, os benefícios, riscos e novidades sobre medicamentos, exames e prevenção de doenças.
Fontes
The BMJ
Pasternak B. et al. Glucagon-like peptide 1 receptor agonist use and risk of thyroid cancer: Scandinavian cohort study. BMJ, 2024.
European Medicines Agency (EMA)
GLP-1 receptor agonists: available evidence not supporting link with thyroid cancer. Pharmacovigilance Risk Assessment Committee, 2023.
U.S. Food and Drug Administration (FDA)
WEGOVY (semaglutide): Prescribing Information, versão de 2026.
U.S. Food and Drug Administration (FDA)
ZEPBOUND (tirzepatide): Prescribing Information, versão de 2026.
Diabetes, Obesity and Metabolism / PubMed
Silverii G.A. et al. GLP-1 receptor agonists and the risk for cancer: A meta-analysis of randomized controlled trials, 2025.
PubMed
Incretin-Based Therapy and Thyroid Cancer Risk: A Systematic Review and Meta-Analysis of Randomized Controlled Trials.

