Desrespeito com profissionais de saúde no trabalho: o que fazer e quando denunciar?
Humilhações, gritos, ameaças, constrangimentos e desvalorização não devem ser tratados como parte normal da rotina de quem trabalha na saúde. Entenda como reconhecer essas situações, como se proteger e quais caminhos podem ser utilizados para buscar ajuda.
15/09/2026
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Trabalhar na área da saúde significa conviver diariamente com pressão, urgências, cobranças, sofrimento e decisões que podem ter impacto direto na vida das pessoas. Mas existe uma diferença importante entre trabalhar sob pressão e trabalhar sob desrespeito.
Gritos, ironias constantes, humilhações, ameaças, exposição diante da equipe, desqualificação profissional e tentativas de intimidar quem aponta um problema não deveriam ser naturalizados apenas porque acontecem dentro de um hospital, laboratório, clínica ou unidade de saúde.
A Organização Mundial da Saúde considera violência e assédio no trabalho situações que podem envolver abuso verbal, psicológico, físico e sexual, além de ameaças e outras formas de comportamento abusivo relacionadas ao trabalho. A OMS destaca que profissionais de diferentes áreas da saúde podem estar expostos a essas situações.
Mas o que fazer quando isso acontece?
O que pode ser considerado desrespeito no ambiente de trabalho?
Nem todo conflito profissional é assédio moral. Divergências acontecem, especialmente em ambientes complexos como os serviços de saúde.
O problema começa quando a discordância deixa de ser técnica e passa para o campo da agressão, humilhação ou intimidação.
Alguns exemplos incluem:
gritar ou xingar um profissional;
ridicularizá-lo diante de colegas, pacientes ou acompanhantes;
fazer comentários depreciativos sobre sua competência sem fundamento técnico;
ameaçar punições como forma de intimidação;
espalhar boatos ou tentar prejudicar sua reputação;
excluir deliberadamente alguém de informações necessárias ao trabalho;
constranger o trabalhador repetidamente;
utilizar uma posição hierárquica para humilhar;
desautorizar um profissional de maneira ofensiva diante da equipe;
pressionar alguém para executar uma conduta que considere inadequada ou contrária às normas profissionais.
Um episódio isolado pode ser grave e exigir providências, mesmo que juridicamente não seja caracterizado como assédio moral.
Por isso, mais importante do que tentar dar imediatamente um nome jurídico à situação é reconhecer que determinadas condutas não são aceitáveis.
Cobrança profissional não é autorização para humilhar
Um gestor pode cobrar prazo, qualidade, cumprimento de protocolos, produtividade e responsabilidade.
Um colega pode discordar de uma conduta.
Um médico pode questionar um resultado laboratorial.
Um analista de laboratório pode solicitar uma nova coleta.
Uma equipe pode discutir tecnicamente um procedimento.
Nada disso, por si só, representa desrespeito.
O problema está na maneira como isso acontece.
Existe uma enorme diferença entre dizer:
“Precisamos revisar esse resultado antes da liberação.”
e transformar a discussão em exposição pública, gritos ou ataques pessoais.
Hierarquia não elimina o dever de respeito.
Quando o desrespeito vem de outro profissional de saúde
Conflitos entre categorias profissionais também podem acontecer.
Médicos, enfermeiros, biomédicos, farmacêuticos, fisioterapeutas, técnicos, analistas de laboratório e outros integrantes da assistência possuem atribuições diferentes, mas trabalham dentro de uma mesma cadeia de cuidado.
Discordar tecnicamente faz parte.
Desqualificar a outra profissão, não.
No laboratório, por exemplo, questionar uma amostra inadequada, solicitar recoleta, repetir uma análise, investigar uma inconsistência ou atrasar a liberação para confirmar determinado achado pode fazer parte da segurança do processo.
A pressão pela rapidez não deveria substituir critérios técnicos.
E quando o desrespeito vem da própria chefia?
A situação pode se tornar ainda mais delicada quando existe diferença hierárquica.
O trabalhador pode ter receio de sofrer perseguição, mudança de escala, advertências, isolamento ou até perder o emprego.
Mesmo assim, cargo de liderança não concede liberdade para constranger ou humilhar subordinados.
Na Biomedicina, por exemplo, o Código de Ética do Profissional Biomédico estabelece que o profissional deve agir com dignidade e retidão nas relações profissionais e prevê direitos relacionados ao exercício digno da profissão e às condições adequadas de trabalho.
O Código também estabelece que o biomédico pode indicar falhas nas normas da instituição quando as considerar prejudiciais ao exercício profissional ou à coletividade.
Portanto, apontar tecnicamente um problema não deveria ser confundido com insubordinação.
O que fazer diante de uma situação de desrespeito?
O primeiro impulso pode ser responder imediatamente no mesmo tom.
Geralmente, essa não é a melhor estratégia.
Uma resposta agressiva pode transformar uma situação inicialmente clara em um conflito entre duas pessoas, dificultando posteriormente a compreensão do que realmente aconteceu.
Quando for possível e seguro, mantenha uma comunicação objetiva.
Depois, registre o ocorrido.
Anote data, horário, local, pessoas presentes, o que aconteceu e quais providências foram tomadas.
Quando houver documentos legítimos relacionados ao trabalho, como e-mails, mensagens institucionais ou registros formais, preserve-os.
O objetivo não é criar uma guerra dentro do trabalho.
É evitar que uma situação importante dependa apenas da memória de quem estava presente.
Documentar pode fazer diferença
Existe uma diferença enorme entre dizer:
“Isso acontece sempre comigo.”
e apresentar registros objetivos de diferentes episódios.
Um bom registro deve responder perguntas simples:
Quando aconteceu?
Onde aconteceu?
Quem estava presente?
O que foi dito ou feito?
Houve testemunhas?
A situação interferiu no trabalho?
O episódio foi comunicado a alguém?
Existe algum documento relacionado ao ocorrido?
Quanto mais objetivo for o registro, melhor.
Evite exageros, interpretações e ataques pessoais. Registre fatos.
Procure os canais internos
Dependendo da instituição, podem existir diferentes caminhos para comunicar o problema.
Entre eles estão liderança superior, Recursos Humanos, ouvidoria, canal de ética, compliance, CIPA ou outro mecanismo interno de denúncia.
A Lei nº 14.457/2022 estabeleceu medidas relacionadas à prevenção e ao combate ao assédio sexual e a outras formas de violência no trabalho para empresas obrigadas a constituir CIPA, incluindo procedimentos para recebimento e acompanhamento de denúncias.
É importante conhecer os canais disponíveis no próprio local de trabalho.
Quando procurar o conselho profissional?
Quando a situação também envolver possível infração ética relacionada ao exercício de uma profissão regulamentada, o respectivo conselho profissional pode ser um dos caminhos possíveis.
No caso dos biomédicos, o Código de Ética prevê comunicação ao Conselho Regional diante de fatos que possam caracterizar determinadas infrações éticas, desde que realizada com fundamento.
O próprio Código estabelece ainda que o biomédico deve manter respeito pela atividade de colegas e outros profissionais.
Uma denúncia profissional séria deve estar baseada em fatos e, sempre que possível, acompanhada de elementos que permitam sua apuração.
E se houver ameaça ou agressão física?
Nesse ponto, a situação deixa de ser simplesmente uma discussão desagradável no trabalho.
Ameaças, agressões físicas, violência sexual e outras situações graves podem exigir medidas imediatas de proteção e avaliação pelas autoridades competentes.
Se existir risco atual à integridade física, a prioridade é buscar segurança e ajuda.
O profissional não precisa permanecer em uma situação perigosa apenas para tentar resolver o problema internamente.
Pacientes e acompanhantes também podem desrespeitar profissionais
Esse ponto merece atenção.
O profissional de saúde precisa tratar pacientes e familiares com respeito, inclusive durante situações emocionalmente difíceis.
Mas isso não significa que precise aceitar agressões.
Gritos, ameaças, violência física, ofensas discriminatórias ou intimidação também podem partir de pacientes e acompanhantes.
As instituições precisam ter estratégias para lidar com esses episódios, protegendo tanto os trabalhadores quanto os demais pacientes.
A OMS reconhece a violência e o assédio como riscos ocupacionais relevantes no setor da saúde e recomenda medidas organizacionais para reduzir esses episódios.
Não normalize o desrespeito porque “sempre foi assim”
Talvez essa seja uma das frases mais perigosas dentro de qualquer ambiente de trabalho:
“Aqui sempre foi assim.”
Uma conduta inadequada não se torna correta porque acontece há anos.
Também não se torna aceitável porque vem de alguém com cargo superior.
Ambientes de saúde precisam de profissionais capazes de discutir, discordar, revisar condutas e apontar riscos.
Silenciar alguém pelo medo pode produzir um efeito ainda mais perigoso: fazer com que as pessoas parem de comunicar problemas.
E, na saúde, problemas que deixam de ser comunicados não simplesmente desaparecem.
Eles podem chegar até o paciente.
Respeito também faz parte da segurança
Respeito profissional não significa ausência de cobrança.
Significa poder cobrar sem humilhar.
Discordar sem atacar.
Corrigir sem ridicularizar.
Liderar sem intimidar.
E reconhecer que nenhuma função dentro de um serviço de saúde funciona completamente sozinha.
Quando um profissional começa a ter medo de perguntar, comunicar um erro, registrar uma não conformidade ou discordar tecnicamente de uma decisão, o problema deixa de ser apenas das relações de trabalho.
Pode se tornar também um problema de segurança.
Quando buscar orientação externa?
Quando os canais internos não resolvem o problema, existe receio de retaliação ou a situação envolve possível violação trabalhista, ética ou criminal, pode ser necessário buscar orientação especializada.
Dependendo do caso, isso pode envolver sindicato da categoria, conselho profissional, Ministério Público do Trabalho, Ministério do Trabalho e Emprego, advogado ou autoridades policiais.
O caminho adequado depende do tipo e da gravidade da situação.
Este conteúdo possui caráter informativo e não substitui orientação jurídica individualizada.
Em Síntese
Ninguém precisa concordar com tudo dentro de uma equipe de saúde.
Na verdade, discordâncias técnicas fazem parte de um ambiente profissional responsável.
O que não deveria fazer parte da rotina são humilhação, intimidação e violência.
Quando o respeito desaparece, documentar os fatos, conhecer seus direitos e utilizar os canais adequados pode ser mais eficaz do que simplesmente responder no mesmo tom.
Porque trabalhar sob pressão pode fazer parte da saúde.
Trabalhar sob humilhação não deveria fazer.
Você já presenciou alguma situação de desrespeito no ambiente de saúde?
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Acompanhe o Alerta Saúde para mais conteúdos sobre saúde, exames laboratoriais, segurança do paciente e rotina dos profissionais de saúde.
Fontes
Organização Mundial da Saúde (OMS/WHO)
Violence and harassment: Occupational hazards in the health sector. A OMS aborda violência, ameaças, abuso verbal, psicológico, físico e assédio envolvendo trabalhadores da saúde.
Conselho Federal de Biomedicina (CFBM)
Resolução CFBM nº 330, de 5 de novembro de 2020. Código de Ética do Profissional Biomédico. Especialmente os dispositivos relacionados à dignidade profissional, relações entre colegas, condições de trabalho e comunicação de infrações.
Presidência da República – Legislação Federal
Lei nº 14.457, de 21 de setembro de 2022. O artigo 23 trata de medidas de prevenção e combate ao assédio sexual e a outras formas de violência no âmbito do trabalho em empresas abrangidas pelas regras da CIPA.
Ministério do Trabalho e Emprego
Materiais e orientações oficiais relacionados à prevenção do assédio, discriminação e violência no ambiente de trabalho.

