Dor epigástrica ou infarto? Entenda por que os sintomas podem ser confundidos na urgência

Dor na “boca do estômago” pode ter origem digestiva, mas também pode ser manifestação de síndrome coronariana aguda. Entenda por que essa semelhança exige atenção e como a urgência diferencia as duas situações.

28/08/2026

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Dor epigástrica ou infarto: por que essa confusão acontece?

Uma pessoa chega à urgência dizendo que está com uma forte dor na “boca do estômago”. Pode ser gastrite, refluxo, úlcera ou outro problema gastrointestinal. Mas existe uma possibilidade que não pode ser ignorada: a dor também pode ter origem cardíaca.

O próprio protocolo do SAMU 192 inclui dor prolongada localizada na região epigástrica ou abdominal alta entre as apresentações que podem levantar suspeita de síndrome coronariana aguda (SCA), principalmente quando existem outros sinais associados.

É justamente aí que surge uma situação comum e potencialmente perigosa na urgência: uma manifestação de infarto pode parecer um problema digestivo.

E, nesse cenário, errar para o lado de uma simples “gastrite” pode atrasar um diagnóstico no qual o tempo é decisivo.

O que é dor epigástrica?

A região epigástrica corresponde à parte superior e central do abdome, logo abaixo do esterno. Popularmente, é a chamada “boca do estômago”.

Dor ou desconforto nessa região pode ocorrer em diversas condições, como gastrite, refluxo gastroesofágico, úlcera péptica, pancreatite e doenças da vesícula biliar.

O problema é que a localização da dor, sozinha, não determina qual órgão está causando o sintoma.

O coração também pode produzir desconforto percebido nessa região.

Como um problema no coração pode parecer dor de estômago?

Durante uma síndrome coronariana aguda, ocorre redução súbita do fluxo sanguíneo para uma parte do músculo cardíaco. Dependendo da intensidade e duração dessa redução, pode ocorrer lesão do miocárdio e infarto.

Embora a manifestação clássica seja pressão ou desconforto no peito, os sintomas não precisam permanecer restritos ao tórax.

O paciente pode apresentar náuseas, vômitos, sudorese, falta de ar, fraqueza e desconforto em outras regiões. As orientações atuais da American Heart Association reconhecem náuseas e vômitos entre os possíveis sinais associados à síndrome coronariana aguda.

Isso ajuda a explicar por que alguns pacientes chegam à urgência acreditando estar enfrentando um problema gastrointestinal.

Existe relação com a localização do infarto?

Sim. Um exemplo importante é o infarto de parede inferior, frequentemente relacionado à irrigação pela artéria coronária direita, embora a anatomia coronariana possa variar.

Nesses casos, manifestações como náuseas, vômitos e desconforto epigástrico podem ocorrer e contribuir para uma apresentação aparentemente gastrointestinal.

Mas existe um ponto fundamental: dor epigástrica não significa automaticamente infarto inferior, assim como um infarto inferior não obrigatoriamente produzirá dor abdominal.

Na prática, localização, características do desconforto, fatores de risco, sintomas associados, eletrocardiograma e marcadores cardíacos precisam ser analisados em conjunto.

Quando a dor epigástrica deve aumentar a suspeita?

Algumas características tornam o quadro mais preocupante, principalmente quando o desconforto epigástrico aparece associado a:

  • pressão, aperto ou peso no peito ou na região superior do abdome;

  • suor frio;

  • náuseas ou vômitos;

  • falta de ar;

  • palidez;

  • tontura ou sensação de desmaio;

  • fraqueza súbita;

  • dor ou desconforto irradiando para braço, ombro, mandíbula, pescoço ou costas;

  • início durante esforço físico ou estresse;

  • fatores de risco cardiovascular.

O protocolo brasileiro do SAMU descreve que a dor relacionada à SCA pode ser retroesternal, precordial, epigástrica ou abdominal alta e pode estar acompanhada de náuseas, vômitos, sudorese fria e dispneia.

Quem pode apresentar sintomas menos evidentes?

Essa atenção é especialmente importante em idosos e pessoas com diabetes.

O Ministério da Saúde alerta que o infarto pode ocorrer sem sinais específicos nesses grupos e afirma que, em idosos, a dor pode inclusive aparecer no abdome e se parecer com gastrite ou refluxo.

Isso significa que esperar obrigatoriamente aquela imagem clássica de alguém segurando o lado esquerdo do peito pode ser um erro.

Um infarto nem sempre chega à emergência anunciando claramente que o problema está no coração.

Gastrite e infarto podem produzir sintomas parecidos?

Sim, e é justamente isso que torna a avaliação necessária.

Refluxo gastroesofágico pode provocar queimação retroesternal. Gastrite pode causar dor epigástrica, náuseas e mal-estar. Um quadro cardíaco também pode provocar desconforto epigástrico, náuseas e sensação de queimação ou pressão.

Até mesmo a interpretação subjetiva do paciente varia.

Uma pessoa pode chamar o mesmo sintoma de “azia”, outra de “queimação”, outra de “pressão” e outra simplesmente dizer: “meu estômago está doendo”.

Por isso, a descrição inicial do paciente é importante, mas não deve ser utilizada isoladamente para excluir uma síndrome coronariana aguda.

Como a urgência diferencia dor epigástrica de um problema cardíaco?

Não existe um único sinal capaz de resolver todos os casos.

A avaliação costuma envolver história clínica, exame físico, características e duração dos sintomas, fatores de risco cardiovascular e eletrocardiograma (ECG).

Quando existe suspeita de lesão miocárdica, entram também os biomarcadores cardíacos, especialmente a troponina.

A avaliação pode exigir medições seriadas, porque o comportamento do marcador ao longo do tempo pode fornecer informações importantes. Dependendo do caso, outros exames também podem ser necessários para investigar causas cardíacas ou não cardíacas.

As diretrizes recomendam que pacientes com sintomas potencialmente relacionados à síndrome coronariana sejam avaliados por protocolos estruturados de risco, em vez de simplesmente classificar uma apresentação como “atípica”.

E se o eletrocardiograma estiver normal?

Esse é outro ponto importante.

Um ECG inicial sem alterações diagnósticas não significa automaticamente que um infarto ou outra síndrome coronariana aguda esteja descartado.

Existem diferentes apresentações da síndrome coronariana aguda, incluindo infarto com elevação do segmento ST, infarto sem elevação do segmento ST e angina instável. A diretriz norte-americana atualizada em 2025 aborda justamente essas diferentes formas de apresentação e manejo da SCA.

É por isso que o resultado do ECG precisa ser interpretado dentro de todo o contexto clínico.

A troponina resolve a dúvida?

Ela é extremamente importante, mas também não deve ser interpretada isoladamente.

A troponina indica lesão do músculo cardíaco, mas sua elevação não é exclusiva do infarto. Além disso, dependendo do momento em que a amostra é coletada em relação ao início dos sintomas, a dinâmica das concentrações pode ser relevante para a interpretação.

É justamente a combinação entre sintomas, ECG, evolução clínica, troponina e outros achados que ajuda a equipe a estabelecer o diagnóstico.

Ou seja: não é apenas “pedir uma troponina e ver se deu positivo”.

Existe raciocínio clínico e laboratorial por trás do resultado.

Por que essa confusão é tão importante na urgência?

Porque as duas possibilidades têm consequências completamente diferentes.

Uma condição gastrointestinal pode ser desconfortável e exigir investigação, mas uma síndrome coronariana aguda representa uma emergência potencialmente fatal.

No infarto, parte do músculo cardíaco está sofrendo por falta de fluxo sanguíneo adequado. Quanto maior o atraso para reconhecer e tratar uma obstrução coronariana relevante, maior pode ser o dano ao miocárdio.

O Ministério da Saúde destaca que o atendimento nos primeiros minutos é fundamental para reduzir o risco de morte por infarto.

Por isso, diante de uma dor epigástrica suspeita, a prioridade não é provar rapidamente que “é só o estômago”.

É excluir primeiro aquilo que pode colocar a vida do paciente em risco.

Dor na boca do estômago não deve ser ignorada

Na maioria das vezes, uma dor epigástrica não significará necessariamente um infarto. Entretanto, quando ela surge de maneira súbita, intensa ou diferente do habitual, especialmente acompanhada de suor frio, falta de ar, náuseas, fraqueza, pressão no peito ou mal-estar importante, procurar atendimento médico é fundamental.

Não tente diferenciar sozinho gastrite, refluxo e infarto apenas pela localização ou sensação da dor.

O Ministério da Saúde orienta que, diante de sinais sugestivos de infarto, seja acionado o SAMU pelo número 192 ou procurado atendimento de emergência.

Dor na “boca do estômago” também pode ser um sinal de alerta.

Compartilhe este conteúdo com alguém que ainda acredita que infarto obrigatoriamente provoca apenas uma forte dor no peito. Informação correta pode fazer diferença justamente quando cada minuto importa.

Continue acompanhando o Alerta Saúde para entender sintomas, exames laboratoriais e situações de urgência com informação clara e baseada em evidências.

Fontes

Ministério da Saúde: Linha de Cuidado do Infarto Agudo do Miocárdio e Protocolo de Síndromes Coronarianas Agudas.
Acessar o protocolo do Ministério da Saúde

Ministério da Saúde: Informações sobre infarto, sinais de alerta e atendimento de emergência.
Acessar a página sobre infarto

SAMU 192 / Ministério da Saúde: Protocolo de Suporte Avançado de Vida para dor torácica não traumática e síndrome coronariana aguda.
Consultar o protocolo do SAMU 192

American Heart Association / American College of Cardiology: 2025 Guideline for the Management of Patients With Acute Coronary Syndromes.
Consultar a diretriz de síndrome coronariana aguda

American Heart Association / American College of Cardiology: Guideline for the Evaluation and Diagnosis of Chest Pain.
Consultar a diretriz de avaliação da dor torácica

Dor na região do estômago nem sempre significa que o problema está no estômago