Dor torácica em criança na urgência: quando é preocupante e o que pode causar?
Na maioria das vezes, a dor no peito em crianças não tem origem cardíaca. Mas alguns sinais de alerta exigem investigação rápida para descartar problemas potencialmente graves.
07/09/2026
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Quando uma criança diz que está sentindo dor no peito, a preocupação costuma ser imediata: será que é o coração?
Essa associação é compreensível, principalmente porque, nos adultos, a dor torácica pode estar relacionada a condições cardiovasculares graves. Na infância e adolescência, porém, o cenário é bastante diferente.
Estudos mostram que a grande maioria dos episódios de dor torácica em crianças tem origem não cardíaca. Uma revisão sistemática e metanálise encontrou causas cardíacas em aproximadamente 2,5% dos pacientes pediátricos avaliados, enquanto 97,5% apresentavam causas não cardíacas.
Isso não significa que a queixa deva ser ignorada.
O principal desafio na urgência é justamente reconhecer a criança com uma causa comum e benigna e, ao mesmo tempo, identificar rapidamente aquele pequeno grupo que apresenta sinais de uma condição potencialmente grave.
Dor no peito em criança é comum?
A dor torácica é um motivo conhecido de procura por serviços pediátricos de urgência. Apesar do medo de uma doença cardíaca, estudos mostram repetidamente que as causas cardiovasculares são pouco frequentes nessa população.
Uma revisão sistemática recente, envolvendo quase 15 mil pacientes pediátricos atendidos em departamentos de emergência, encontrou causas cardíacas em aproximadamente 0,9% a 1,5% das populações não selecionadas analisadas.
Por isso, dor no peito em criança não deve ser interpretada da mesma maneira que dor torácica em um adulto.
A investigação precisa considerar idade, características da dor, sintomas associados, exame físico, antecedentes pessoais e histórico familiar.
Quais são as principais causas de dor torácica em crianças?
1. Dor musculoesquelética
É uma das causas mais frequentes.
Pode ocorrer após atividade física, exercícios, tosse intensa, pequenos traumas ou inflamação das estruturas da parede torácica.
Um exemplo conhecido é a costocondrite, uma inflamação das regiões onde as costelas se conectam ao esterno.
Uma pista importante é a dor que pode ser reproduzida ou piorada ao pressionar determinada região do tórax ou com alguns movimentos.
Estudos apontam as causas musculoesqueléticas entre as principais explicações para dor torácica pediátrica.
2. Causas respiratórias
Problemas pulmonares também podem provocar dor no peito.
Entre as possibilidades estão:
pneumonia;
asma;
infecções respiratórias;
pleurite;
pneumotórax;
pneumomediastino;
esforço muscular provocado por tosse persistente.
Quando a dor aparece acompanhada de falta de ar, febre, tosse, queda da saturação ou dificuldade para respirar, a avaliação respiratória ganha ainda mais importância.
3. Problemas gastrointestinais
O aparelho digestivo também pode ser responsável pela dor.
Refluxo gastroesofágico, esofagite, distensão abdominal e outros problemas digestivos podem provocar desconforto percebido pela criança como uma dor no tórax.
Queimação, relação com alimentação, regurgitação ou desconforto abdominal associado podem ajudar na investigação.
4. Ansiedade e fatores emocionais
Ansiedade, estresse e outros fatores emocionais também podem se manifestar fisicamente como dor ou aperto no peito.
Isso ocorre especialmente em crianças maiores e adolescentes.
Entretanto, atribuir imediatamente a dor à ansiedade pode ser um erro.
Antes disso, é importante avaliar o quadro clínico e verificar se existem sinais que indiquem outra causa.
5. Causas cardíacas
São bem menos frequentes, mas merecem atenção justamente pelo potencial de gravidade.
Entre as condições cardiovasculares que podem estar relacionadas à dor torácica pediátrica estão:
miocardite;
pericardite;
arritmias;
cardiomiopatias;
cardiopatias estruturais;
anomalias coronarianas;
algumas doenças inflamatórias ou sistêmicas.
A síndrome coronariana aguda, tão temida em adultos com dor torácica, é extremamente rara na população pediátrica.
Quais sinais de alerta merecem atenção?
Algumas características aumentam a preocupação com uma possível origem cardiovascular ou outra condição grave.
O protocolo de dor torácica pediátrica do Children's Hospital of Philadelphia destaca sinais como dor durante esforço físico, início agudo, pressão retroesternal, irradiação da dor, síncope, tontura, palpitações e dificuldade respiratória.
Também merecem atenção:
desmaio durante ou logo após exercício;
palpitações associadas à dor;
falta de ar importante;
cianose, quando a criança fica arroxeada;
hipotensão;
alteração do ritmo cardíaco;
sopro cardíaco novo ou significativo;
história conhecida de cardiopatia;
histórico familiar de cardiomiopatia;
morte súbita inexplicada em familiares jovens.
Dor torácica durante atividade física acompanhada de desmaio é um sinal que não deve ser banalizado.
Como a criança com dor torácica é avaliada na urgência?
A investigação começa antes dos exames.
Uma boa história clínica pode fornecer informações fundamentais.
O profissional pode perguntar quando a dor começou, onde dói, quanto tempo dura, se aparece durante exercício, se piora com movimento ou respiração, se existe febre, tosse, palpitação, falta de ar, tontura ou desmaio.
Também é importante conhecer doenças anteriores, medicamentos utilizados e histórico familiar.
O exame físico inclui avaliação dos sinais vitais e dos sistemas cardiovascular, respiratório e musculoesquelético.
A partir desses dados é decidido se exames complementares são necessários.
Toda criança com dor no peito precisa fazer eletrocardiograma?
Não necessariamente.
O eletrocardiograma, conhecido como ECG, pode ser muito importante quando existem características sugestivas de doença cardíaca.
Por outro lado, realizar exames indiscriminadamente em todas as crianças com dor torácica pode gerar achados incidentais e investigações desnecessárias.
Protocolos clínicos recomendam uma estratégia baseada principalmente na história, exame físico e presença de fatores de risco.
Quando há suspeita cardiovascular, o ECG ganha papel importante na avaliação inicial.
E a troponina?
Aqui existe um ponto importante.
Troponina não deve ser encarada como um exame de rastreamento obrigatório para toda criança que chega à urgência com dor no peito.
Ela é um marcador de lesão miocárdica e pode ser muito útil quando existe suspeita clínica de condições como miocardite ou pericardite.
Entretanto, uma troponina elevada não significa automaticamente infarto.
Além disso, utilizar o marcador isoladamente não é uma estratégia adequada para investigar todas as crianças com dor torácica. A interpretação deve considerar sintomas, exame físico, ECG e todo o contexto clínico.
Troponina alta em criança significa infarto?
Não.
Essa associação, comum na população adulta, não pode ser simplesmente transferida para a pediatria.
A elevação da troponina indica lesão das células cardíacas, mas diferentes condições podem provocar esse aumento.
Miocardite e pericardite estão entre as situações que precisam ser consideradas em crianças com quadro clínico compatível.
Por isso, o resultado laboratorial nunca deve ser analisado isoladamente.
Quando o raio-X de tórax pode ser solicitado?
O exame pode ser útil principalmente quando existe suspeita de uma causa pulmonar ou torácica.
Pneumonia, pneumotórax, pneumomediastino e algumas alterações cardiovasculares podem produzir achados radiológicos.
Assim como ocorre com outros exames, porém, o raio-X não precisa ser realizado automaticamente em toda criança que apresenta dor no peito.
A decisão depende da avaliação clínica.
Quando o ecocardiograma é necessário?
O ecocardiograma permite avaliar estruturas e funcionamento do coração.
Pode ser indicado quando a história, o exame físico, o ECG ou outros elementos levantam suspeita de uma alteração cardíaca.
Não costuma ser necessário como exame de rotina para todas as crianças com dor torácica.
Essa seleção dos pacientes é importante porque estudos mostram que estratégias estruturadas conseguem diminuir exames desnecessários sem comprometer a identificação das causas cardíacas relevantes.
A criança pode ter miocardite?
Sim.
Embora não seja uma causa comum de dor torácica pediátrica, a miocardite merece atenção.
Trata-se de uma inflamação do músculo cardíaco que pode ocorrer, entre outras situações, após processos infecciosos.
Dependendo do caso, a criança pode apresentar dor torácica associada a cansaço, falta de ar, palpitações, alterações no ECG ou elevação de marcadores de lesão cardíaca.
A avaliação deve considerar o conjunto dos achados e não apenas um exame isolado.
Dor torácica em criança é emergência?
Depende das características do quadro.
Grande parte das dores torácicas pediátricas possui causas benignas e autolimitadas. Porém, algumas apresentações precisam de avaliação imediata.
Procure atendimento de urgência principalmente quando a criança apresentar dor intensa ou súbita, dificuldade para respirar, desmaio, palpitações importantes, coloração arroxeada, alteração do estado geral ou dor desencadeada por exercício, especialmente se houver antecedentes cardíacos pessoais ou familiares.
O mais importante: não pensar na criança como um “adulto pequeno”
Esse talvez seja um dos principais pontos na avaliação da dor torácica pediátrica.
No adulto, a investigação costuma dar grande atenção à doença arterial coronariana e ao infarto.
Na criança, a distribuição das causas é completamente diferente.
Uma metanálise encontrou aproximadamente 97,5% das dores torácicas pediátricas relacionadas a causas não cardíacas.
Isso permite uma abordagem mais racional.
Nem banalizar a dor porque “criança não tem problema cardíaco”, nem transformar toda dor no peito em suspeita automática de infarto.
O caminho mais seguro está na avaliação clínica cuidadosa e na identificação dos sinais de alerta.
Em Síntese
A dor torácica em crianças pode assustar pais e responsáveis, mas na maioria das vezes não está relacionada a uma doença do coração.
Problemas musculoesqueléticos, respiratórios, gastrointestinais e fatores emocionais estão entre as causas mais frequentes.
As doenças cardíacas representam uma pequena parcela dos casos, mas algumas podem ser graves. Por isso, dor durante esforço, desmaio, palpitações, falta de ar, alterações cardiovasculares no exame físico ou histórico familiar preocupante precisam receber atenção especial.
Na urgência, exames como eletrocardiograma, troponina, raio-X e ecocardiograma devem ser solicitados de acordo com a suspeita clínica, e não simplesmente porque existe dor no peito.
Seu filho ou uma criança próxima já reclamou de dor no peito?
Não ignore sintomas persistentes ou acompanhados de sinais de alerta. Procure avaliação médica para identificar a causa e definir se existe necessidade de investigação complementar.
Para mais conteúdos sobre urgência, exames laboratoriais e saúde, continue acompanhando o Alerta Saúde.
Este conteúdo possui finalidade educativa e não substitui avaliação, diagnóstico ou tratamento realizado por profissionais de saúde.
Fontes
Children's Hospital of Philadelphia (CHOP). Chest Pain Clinical Pathway – Emergency Department. Protocolo revisado em julho de 2025.
Huang SW, Liu YK, et al. Pediatric Chest Pain: A Review of Diagnostic Tools in the Pediatric Emergency Department. Diagnostics. 2024.
Chest pain in pediatric patients in the emergency department: Presentation, risk factors and outcomes. Revisão sistemática e metanálise.
Etiology and Outcomes of Pediatric Chest Pain in the ED: A Systematic Review. Revisão sistemática envolvendo 14.871 pacientes pediátricos.

