CK-MB elevado após crise convulsiva: quando a alteração não é cardíaca
Entenda a diferença entre lesão muscular e infarto na interpretação dos marcadores cardíacos
15/12/2025
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Na urgência, a elevação de CK-MB costuma acender um alerta imediato para infarto agudo do miocárdio. No entanto, esse raciocínio automático pode levar a erros de interpretação, principalmente em pacientes que acabaram de apresentar uma crise convulsiva.
Nem toda elevação de CK-MB é cardíaca. Em muitos casos, o aumento ocorre por lesão muscular esquelética intensa, e não por dano ao coração.
Entender essa diferença é fundamental para evitar diagnósticos equivocados, exames desnecessários e condutas inadequadas.
O que é CK-MB e por que ela sobe?
A CK-MB (Creatina Quinase fração MB) é uma isoenzima presente:
no músculo cardíaco, mas também;
em menor proporção no músculo esquelético.
Historicamente, a CK-MB foi usada como marcador de infarto. Hoje, sabe-se que ela não é específica do coração, especialmente em situações que cursam com grande agressão muscular.
O que acontece durante uma crise convulsiva?
Durante uma crise convulsiva tônico-clônica:
ocorre contração muscular intensa e prolongada;
há consumo elevado de energia;
microlesões musculares são frequentes;
pode haver rabdomiólise leve a moderada.
Como consequência, há liberação de:
CK total;
CK-MB;
mioglobina.
Tudo isso sem qualquer lesão cardíaca associada.
Por que a CK-MB sobe sem infarto após convulsão?
A explicação é fisiológica:
o músculo esquelético também contém CK-MB;
lesões musculares extensas liberam essa fração;
quanto mais intensa e prolongada a convulsão, maior a elevação;
👉 A origem da CK-MB, nesse contexto, é muscular — não cardíaca.
O erro comum na urgência
Após a convulsão, o paciente chega:
confuso;
taquicárdico;
com CK-MB elevada.
O erro clássico é concluir rapidamente:
“CK-MB subiu, então é coração.”
Sem considerar:
contexto clínico;
ausência de dor torácica típica;
ECG sem padrão isquêmico;
troponina normal.
Isso pode levar a:
internações desnecessárias;
exames invasivos;
ansiedade para paciente e família;
atraso na investigação da causa real.
Troponina: o marcador certo para o coração
Diferente da CK-MB, a troponina cardíaca é altamente específica para lesão miocárdica.
Em crises convulsivas:
a troponina costuma permanecer normal;
quando se eleva, geralmente é por estresse secundário (e não infarto clássico).
👉 CK-MB sobe por músculo. Troponina sobe por coração.
Como interpretar corretamente esse cenário?
A avaliação correta envolve integrar:
✔ História clínica
crise convulsiva recente;
ausência de dor torácica típica.
✔ ECG
sem alterações isquêmicas compatíveis.
✔ Marcadores
CK total elevada;
CK-MB elevada;
troponina normal.
✔ Outros exames
função renal;
eletrólitos;
EAS (avaliar mioglobinúria).
O papel do laboratório na segurança diagnóstica
O laboratório tem papel essencial ao:
liberar CK-MB junto do contexto clínico;
evitar interpretações isoladas;
orientar corretamente a equipe assistencial;
valorizar a troponina como marcador principal.
A comunicação clara evita que um marcador menos específico seja supervalorizado.
Quando suspeitar de causa cardíaca de verdade?
Investigue coração quando houver:
dor torácica típica;
ECG sugestivo de isquemia;
troponina em elevação dinâmica;
instabilidade hemodinâmica sem explicação neurológica.
Fora disso, a convulsão explica a CK-MB elevada na maioria dos casos.
Em Síntese
A elevação de CK-MB após crise convulsiva é um achado frequente e não significa infarto.
Interpretar esse marcador fora do contexto é um erro comum na urgência. A medicina segura não se baseia em um número isolado, mas na integração entre clínica, laboratório e raciocínio crítico.
Nem toda alteração aponta para o coração.
Às vezes, ela só revela o que o corpo acabou de enfrentar.
📌 CK-MB elevada exige contexto, não automatismo
✔ Evite interpretar CK-MB de forma isolada, especialmente após crises convulsivas.
✔ Diferencie lesão muscular de lesão cardíaca, integrando clínica, ECG e marcadores adequados.
✔ Valorize a troponina como marcador específico de miocárdio, reduzindo diagnósticos equivocados.
✔ Fortaleça a comunicação entre laboratório e equipe assistencial, aumentando a segurança do paciente.
✔ Aprimore sua prática na urgência, evitando exames e internações desnecessárias.
👉 Importante:
Este conteúdo é educativo. A interpretação de marcadores cardíacos deve sempre considerar o contexto clínico completo e ser conduzida por profissional habilitado.
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📚 Fontes e referências científicas
UpToDate — Creatine kinase and CK-MB: Clinical interpretation; Seizures and muscle injury.
American Heart Association (AHA) — Biomarkers in acute coronary syndromes.
European Society of Cardiology (ESC) — Guidelines for the diagnosis of myocardial infarction.
Tintinalli’s Emergency Medicine — Elevação de CK após crises convulsivas e rabdomiólise.
SBPC/ML — Sociedade Brasileira de Patologia Clínica / Medicina Laboratorial — Boas práticas na interpretação de marcadores laboratoriais.
Harrison’s Principles of Internal Medicine — Distúrbios neurológicos, lesão muscular e marcadores séricos.

