Tuberculose peritoneal: quando o diagnóstico é confundido com câncer e evolui para internação grave
Do diagnóstico difícil à evolução crítica: sinais de alerta, exames e importância do reconhecimento precoce
19/01/2026
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A tuberculose peritoneal é uma forma extrapulmonar da tuberculose que acomete o peritônio, a membrana que reveste os órgãos abdominais. Embora menos comum que a forma pulmonar, ela representa um grande desafio diagnóstico, pois seus sinais e exames frequentemente se confundem com neoplasias abdominais, levando a atrasos no tratamento e, em casos graves, à evolução para internação em UTI e intubação.
Por que a tuberculose peritoneal é confundida com câncer?
A apresentação clínica costuma ser insidiosa e pouco específica, o que dificulta o reconhecimento precoce. Os principais achados incluem:
Dor abdominal progressiva;
Distensão abdominal por ascite;
Perda de peso inexplicada;
Febre baixa persistente;
Fraqueza e anorexia.
Em exames de imagem, como tomografia, é comum observar ascite, espessamento peritoneal, linfonodomegalias e nódulos, achados muito semelhantes aos vistos em carcinomatose peritoneal ou tumores ginecológicos e gastrointestinais.
O papel do laboratório na suspeita diagnóstica
No laboratório, alguns achados podem levantar a suspeita de tuberculose, embora nenhum seja isoladamente diagnóstico:
Anemia inflamatória;
PCR e VHS elevados;
Hipoalbuminemia;
Líquido ascítico com predomínio linfocitário;
ADA (adenosina deaminase) elevada no líquido ascítico.
A confirmação, na maioria das vezes, exige biópsia peritoneal, com estudo histopatológico e pesquisa de Mycobacterium tuberculosis por cultura ou métodos moleculares.
Quando o atraso leva à piora clínica
Sem diagnóstico e tratamento oportunos, a inflamação peritoneal pode evoluir para:
Sepse;
Insuficiência respiratória;
Instabilidade hemodinâmica;
Necessidade de intubação e suporte intensivo.
Casos descritos na prática hospitalar mostram pacientes inicialmente investigados como câncer avançado, que só tiveram o diagnóstico correto após piora clínica importante — um cenário evitável com suspeição precoce.
Tratamento e prognóstico
O tratamento segue o esquema padrão para tuberculose, com antibióticos específicos por tempo prolongado. Quando iniciado precocemente, o prognóstico costuma ser bom. O grande risco está no retardo diagnóstico, não na falta de tratamento eficaz.
Lição clínica e laboratorial
A tuberculose peritoneal reforça uma mensagem fundamental na saúde:
Nem toda ascite com nódulos é câncer. Nem toda inflamação abdominal grave é cirúrgica.
Pensar fora do óbvio, integrar clínica, imagem e laboratório e manter a tuberculose no diagnóstico diferencial — especialmente em países endêmicos — pode salvar vidas.
📌 Tuberculose peritoneal: agir cedo faz diferença
✔ Considere tuberculose no diagnóstico diferencial de ascite, dor abdominal crônica e perda de peso, especialmente em áreas endêmicas.
✔ Solicite avaliação adequada do líquido ascítico (citologia, ADA, perfil celular) e integre com imagem e dados clínicos.
✔ Encaminhe precocemente para biópsia peritoneal quando houver dúvida diagnóstica ou falha em explicar o quadro como neoplasia.
✔ Inicie tratamento específico assim que confirmado — atraso aumenta risco de sepse, UTI e intubação.
✔ Trabalhe em equipe (clínica, imagem e laboratório) para reduzir erros e acelerar decisões.
👉 Suspeitar cedo salva vidas. Informação correta evita atrasos críticos.
📚 Fontes e referências
Ministério da Saúde (Brasil) — Tuberculose: formas extrapulmonares e manejo clínico.
Organização Mundial da Saúde (OMS) — Extrapulmonary tuberculosis: diagnosis and management.
UpToDate — Peritoneal tuberculosis: clinical features, diagnosis, and treatment.
The Lancet Infectious Diseases — Revisões sobre tuberculose extrapulmonar.
INCA / Fiocruz — Diferenciais entre carcinomatose peritoneal e TB peritoneal.

